quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Humor Negro

A propaganda em torno da morte do "querido líder" atingiu níveis bizarros. Como se já não bastassem as sessões de choro colectivas nos quatro quantos do país, chegou-se até ao paranormal, com uma ave branca (maior do que uma pomba) a limpar a neve dos ombros de uma estátua de Kim Jong-il ou a forma como o gelo se quebrou num lago onde oficialmente o querido líder nasceu.


Primeira reacção: rir à fartazana com este tipo de disparates. Reacção no segundo seguinte: lamentar que uma sociedade totalitária, ao nível do "1984", ainda subsista nos dias que correm. Reacção no outro segundo: indignar-se, claro, e questionar como o mundo continua a girar apesar do que se passa na Coreia do Norte.

(Imagem: The Australian)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Feliz 2013...

Todos desejamos que 2012 seja melhor do que 2011. Este ano que passou foi de má memória, nem valendo a pena enumerar aqui os “presentes” que país recebeu nestes últimos doze meses. Mas também não será por acaso que, mesmo para os mais optimistas, as grandes promessas/esperanças de retoma transferiram-se directamente para 2013. Ou seja, tudo indica que 2012 será um ano para esquecer. Aliás, será com certeza ainda pior do que o ano que agora termina. Como é consensual nos mais diversos sectores, 2012 será o ano em que a recessão na economia portuguesa mais se fará sentir, não parando o actual Executivo de encontrar fórmulas criativas para descrever o que aí vem.

Numa atabalhoada declaração, Álvaro Santos Pereira acabou por dar um dos tiros de partida ao dizer que 2012 seria o ano do “começo do fim da crise”. Uma formulação interessante, cujas subsequentes explicações quase levaram a um desmentido. Mas são as formulações do próprio primeiro-ministro que mais dúvidas conseguem levantar. Na sua comunicação de Natal ao país, Passos falou em democratizar a economia, através de uma série de reformas estruturais. Sublinhou que 2012 será o ano de transformação do país. O problema é que a transformação a que se refere é a mesma que há algum tempo atrás confessou que implicaria que o país empobrecesse…

Como há muito vem sendo dito e repetido, a transformação preconizada pelo primeiro-ministro acarreta riscos bastante sérios. Utilizando a famosa expressão popular, o país corre inclusive o risco de morrer da (suposta) cura. Ao nível do sector público, a sede de poupança e de combate ao desperdício tem sido tanta que tem levado a que a Administração Pública se encontre paralisada em diversos sectores. O anúncio de fusão de inúmeros organismos e os grandes atrasos das novas leis orgânicas que se seguiram colocam a nu a difícil governabilidade da estrutura governativa criada. Chegou-se aliás a um panorama em que a razão da poupança se deve ao facto de inúmeros sectores estarem parados. No fundo, uma lógica semelhante a “se ficarmos na cama todo o dia, poupamos energias”. Sendo o aparelho público uma peça dificilmente contornável na economia portuguesa, a sua paragem brusca acarreta naturalmente consequências negativas para uma série de esferas de actividade.

Mas as razões da recessão em curso não se ficam naturalmente por aqui. Uma série de medidas de controlo do défice, desde o aumento de diversos impostos ao corte de prestações ou mesmo regalias sociais, têm contribuído decisivamente para o abrandamento económico do país. Se a isto somarmos a natural falta de confiança dos diversos actores económicos internos e externos, a contracção do investimento e a consequente subida em flexa do desemprego, percebemos bem as consequências negativas da receita económica aplicada. Com menos dinheiro a circular e com menos confiança para investir ou simplesmente consumir, não há economia que resista.

Podemos naturalmente considerar que se trata do sacrifício necessário para regenerar a nossa economia e sairmos assim da crise. Eis uma boa narrativa. Mas terão sido os problemas da economia nacional que nos trouxeram até aqui? Estará alguém convencido que nos conseguiremos levantar independentemente da crise internacional em curso? Como se houvesse uma luz ao fundo do túnel e dependesse apenas de nós alcançá-la. Não quero com este texto deixar uma mensagem pessimista à beira de um ano novo. Mas se calhar, no contexto actual, os melhores votos que podemos fazer a alguém nesta quadra será algo como: “boa sorte para si, para os seus e para todos nós em 2012 e feliz 2013.”



Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

(Imagem: Key Imagery)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Think Different

De há um tempo a esta parte, aprendemos que aqueles que defendem direitos sociais são conservadores. Passos Coelho parece agora querer acrescentar um novo capítulo à referida lição: a liberalização económica em curso, que está a gerar uma forte recessão e a empobrecer o país, deve ser chamada de "democratizar a economia". Brilhante...
(Imagem: Deserto do Sara)

sábado, 24 de dezembro de 2011

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Natal Praguejante

Palermas! Idiotas! Estúpidos! Cretinos! Palhaços! Imbecis! Otários! Tolos! Paspalhos! Parvos! Tansos! Ursos! Filhos de um raio! Atoleimados! Babosos! Autoritários! Ditadores! Fascistas! Déspotas! Reaccionários! Ultramontanos! Beatos! Direitosos! Atrasados! Pacóvios! Ratos de sacristia! Arrogantes! Fanáticos! Intolerantes! Papistas! Cambada de simplórios!

Aldrabões! Trapaceiros! Desonestos! Mentirosos! Porcos! Sacanas! Filhos da mãe! Cães! Mafiosos! Corruptos! Chulos! Raposas! Víboras! Impostores! Trafulhas! Indecentes! Hipócritas! Desleais! Dissimulados! Falsos! Impostores! Charlatães! Intrujões! Vigaristas! Fingidos!

Irresponsáveis! Palhaços! Incompetentes! Patetas! Inconscientes! Inteligências raras! Burros! Parvalhões! Mentes captas! Loucos! Seguidistas! Tontos! Malucos! Doidos! Inábeis! Incapazes! Inaptos! Basbaques! Paspalhos! Broncos! Ignorantes! Incultos! Iletrados! Básicos! Primários! Meninos! Delirantes! Bananas de uma figa!

Assistir a uma telejornal nos dias que correm torna-se num autêntico festival de insultos e pragas rogadas. Entre Primeiros-Ministros que aconselham a emigrar e ministros da saúde que aumentam taxas moderadoras em 150% e 200%, é quase impossível não se ser um praguejador do pior nível enquanto se assiste ao noticiário. É impossível conter-se perante ministros da economia apenas preocupados em fazê-la parar ou ministros da administração interna empenhados em fazer dos cidadãos parvos. Está a ser um Natal muito praguejante. As minhas sinceras desculpas ao Pai Natal e ao menino Jesus.



Artigo hoje publicado no Esquerda.net

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Ao que chegámos...




O negócio da privatização da EDP é ganho por uma empresa 100% detida pelo Estado Chinês. Comentários para quê? Torna-se tristemente bizarro ouvir os apologistas da saída do Estado Português do mercado falar sobre este negócio.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Adeus, meu querido...



Desejar ou celebrar a morte de alguém assume contornos bizarros. No caso de Kim Jong-Il, líder de um regime não apenas ditatorial, mas totalitário, quase temos de fazer um esforço para não celebrar. De qualquer modo, tendo em conta que não se perspectivam mudanças com o sucessor do "querido líder", faria sentido nesta fase uma inteligente ofensiva diplomática procurando algumas brechas no sistema.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Estado não representa os contribuintes?

A discussão em torno das contrapartidas que devem existir para a ajuda pública aos bancos tem-se revelado curiosa, nomeadamente do ponto de semântico. O Presidente da República e agora o Banco de Portugal já manifestaram preocupações quanto à entrada do Estado (esse ser malévolo) nos bancos. E porque não colocar as coisas de outra forma? Sendo dinheiro público, dos contribuintes portanto, porque não falar na entrada dos contribuintes nos bancos?


(Imagem: Kings Clothing)

Já nas bancas



Sumário completo do mês aqui

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Dar Música

Uma entrevista feita por Nuno Rogeiro e Martim Cabral a Passos Coelho só podia ser uma autêntica passadeira vermelha para o entrevistado. O perfil político dos dois entrevistadores assim o determinava. Curiosamente, Passos passeou-se tão bem pela referida passadeira que acabou por escancarar todas as debilidades do seu posicionamento.

Num momento em que a casa europeia está a pegar fogo, não vimos o primeiro-ministro afastar-se um milímetro do rumo seguido até aqui, não vimos qualquer preocupação contra o actual directório franco-alemão, não vimos um pensamento estratégico sobre como um país pequeno e periférico como Portugal pode tentar sequer tentar fazer valer um pouco os seus interesses no panorama europeu. Zero...

Ficámos com a certeza que se o barco europeu (e português) for ao fundo, Passos fará com certeza parte da orquestra que dará música até ao fim.

Ainda acredita no Pai Natal?



Qualquer pessoa necessita de histórias simples, com morais maniqueístas e facilmente atingíveis, para poder facilmente interpretar a realidade que a rodeia. E, como seria de esperar, a comunicação política assenta bastante neste tipo de vicissitude. Os actores políticos simplificam a realidade, dando-lhe uma forma adequada à captação de simpatizantes para os seus pontos de vista. Assim sendo, o grande desafio em termos de comunicação política consiste em conseguir produzir uma narrativa que consiga obter mais aderentes do que a narrativa do adversário. Adaptando a ideia à presente quadra, a nosso conto de Natal tem de ser o mais verosímil, de modo a que todos acreditem no nosso Pai Natal.

Transpondo para o momento actual em Portugal, a mensagem de que “andámos a viver acima das nossas possibilidades, sendo agora necessário redimir-nos”, passou muitíssimo bem nos mais diversos sectores sociais. Existe de facto uma grande compreensão perante o quadro de sacrifícios agora pedido. Peguemos então em três exemplos concretos da presente narrativa da austeridade. Ou seja, exemplos que demonstram bem que entre a realidade e a crença produzida vai uma enorme distância.

Em primeiro lugar, andamos agora convencidos que o presente crise se deve à forma descontrolada como uma série de Estados europeus geriu a dívida soberana. No fundo, os Estados gastaram mais do que deviam em infra-estruturas e num Estado social acima das suas possibilidades. Eis pois a razão porque a economia mundial quase implodiu nos últimos anos, certo? Pois... Todos parecem ter-se já esquecido que a presente crise surgiu devido à falência de uma série de empresas financeiras americanas, nomeadamente o Lehman Brothers. Foi o nervosismo de todo um sector totalmente desregulado que magicamente transformou a crise dos mercados financeiros na crise da dívida soberana dos Estados.

Vamos a um segundo exemplo. Parece-nos agora claro que existe um quadro laboral demasiado permissivo em determinados países, com consequências directas na produtividade. Pegamos no exemplo grego e assumimos rapidamente que são pouco trabalhadores, roçando mesmo a preguiça e a malandrice descarada, correcto? Pois... Mas uma simples vista de olhos pelos dados do Eurostat demonstram-nos, por exemplo, que os gregos são o povo que mais horas por semana trabalha na Europa. E esta, hein? Parece que afinal o problema da produtividade grega não surge de um mercado de trabalho demasiado benevolente.

Por último, parece-nos quase indiscutível que é preciso colocar um ponto final aos abusos e despesismo públicos dos últimos anos. É preciso acabar com regalias, com a abstinência no trabalho, com despesas mal feitas. É preciso melhorar a eficiência e a eficácia do aparelho público, atacando sem tréguas os abusos a que era sujeito, correcto? Pois... Mas se fosse esse o objectivo, o rigor, a transparência dos processos e a fiscalização seriam as medidas adequadas para o fim em causa. No entanto, o caminho seguido tem sido o do corte, da eliminação de direitos, das privatizações.

Este último ponto é particularmente elucidativo. Podemos acreditar que os sacrifícios agora pedidos surgem de uma vontade clara de melhorar o modelo económico e social europeu que prevaleceu até à data, eliminando desperdícios e as ditas gorduras existentes. Ou podemos estar certos que é uma mudança de modelo com preceitos liberais que, sendo naturalmente legítima, está a operar-se de forma muito pouco transparente. No fundo, uma mudança demasiado assente em narrativas. Cada um acredita no Pai Natal que quiser…


Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

(Imagem: Clownlink)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

And the winner is... Portugal!

"Desigualdade entre ricos e pobres portugueses é a maior da Europa", relembra-nos mais um estudo da OCDE. Está visto que não nos sabemos governar. Que andamos a viver ao lado das nossas possibilidades. Não haverá para aí uma qualquer troika que nos venha impor um quadro de austeridade à desigualdade?
(Imagem: The Hungry Cat)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Febre Africana


Sempre fui daqueles que muda de canal quando ouve aquelas conversas sobre o potencial de Portugal em África, sobre Portugal poder ser uma porta de entrada para o continente africano devido aos laços da lusofonia, entre outras frases feitas. Sempre achei tal discurso não só despropositado, mas também embrenhado de um forte componente de saudosismo dos tempos do império.

No entanto, depois de quase uma semana em Moçambique numa reunião da CPLP, confesso que regressei bastante convertido sobre o tanto que pode ser feito entre os países de língua portuguesa. As possibilidades de cooperação, as oportunidades de investimento, as potencialidades de intercâmbio cultural. Basta lá estar um pouco para tal evidência se tornar clara, acreditem.

Este é um momento em que os escassos recursos exigem uma definição clara de prioridades. Se Portugal tem este forte capital de proximidade com diversos países africanos, se calhar é tempo de aproveitar seriamente tal mais-valia. As diversas partes agradecem.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Tempos de Mudança



Como é sabido e sentido, estes são tempos bastante difíceis. Tempos de tensão e conflitualidade impostos por quadros macro-políticos e macro-económicos internacionais severos. E o actual quadro politico nacional tem reflectido isso mesmo, com um Governo com uma vontade inabalável de aplicar uma forte receita de austeridade, com as conhecidas consequências sociais. Neste contexto, torna-se particularmente interessante analisar o como o panorama político nacional está a reagir à presente crise, com todas as relações de força para lá da dinâmica governamental. O mesmo parece apresentar todas as características de um período de forte mudança.

Temos, por um lado, uma oposição com sérias dificuldades em impor-se como alternativa. No que ao maior partido da oposição diz respeito, a memória do eleitorado costuma ser curta, mas ainda não o suficiente para se esquecer que o anterior governo do PS também abraçou a austeridade como única solução possível. Assim sendo, seria o seu caminho assim tão diferente do levado a cabo pelo actual governo? Relativamente à oposição mais à esquerda, até poderia fazer o pino, apresentando todas as alternativas do mundo à actual política. Mas no momento actual, por mais paradoxal que possa parecer, ainda há uma grande distância entre a insatisfação com a actual política e uma eventual inclinação de voto no Bloco ou no PCP.

E esta incapacidade da oposição se mostrar desde já como uma alternativa tem aberto espaço ao papel dos movimentos sociais. Dos mais institucionalizados, como os sindicatos, aos mais inorgânicos, como os indignados, por exemplo. O que sucedeu em Lisboa no dia da greve geral foi paradimático a este respeito. Não existiu apenas uma, mas várias manifestacões. Primeiro vieram os sindicatos, seguiram-se os indignados, depois seguiram-se alguns movimentos anarquistas, misturados com movimentos que têm surgido no sector cultural. E, por fim, ainda vieram os estudantes do Ensino Superior. Poder-se considerar à primeira vista que tal fragmentação não é um sinal de força. Pessoalmente, julgo que é uma demonstração de que a indignação está a chegar a cada vez mais sectores.

A reacção nervosa das autoridade policiais ao presente contexto também é sintomática. Infelizmente as manifestações da passada quinta-feira ficaram marcadas por uma expressiva dureza policial. A PSP fez-se representar nas manifestações com um dispositivo como eu nunca tinha visto. Grupos perfeitamete pacíficos, com crianças e tudo, eram escoltados por uma super-polícia de intervenção, com capacetes, coletes almofadados e shotguns ( presumo que com balas de borracha) orgulhosamente expostas. Com dispositios destes, com agentes à paisana infiltrados no meio da multidão e tudo, não admira que se tenha chegado ao fim do dia com diversos episódios de repressão policial despropositada.

E para este cenário de clara tensão tem também contribuído um jornalismo excessivamente em busca do incidente e do confronto. No caso da manifestação da greve geral, as dezenas de milhares de pessoas que circularam pelas ruas de Lisboa e que se dispuseram a perder um dia de salário com a greve, foram secundarizadas pelos incidentes que envolveram meia dúzia em frente á AR. Dir-me-ão que este jornalismo em busca do sangue é assim em qualquer parte do mundo, não apenas aqui. Certo, mas tal não nos deve ipedir de sermos um pouco mais exigentes com a nossa comunicação social.

Todos os indicadores apontam para estarmos num período de forte mudança. A tensão e conflitualidade que se encontra no ar não deixa dúvidas a este respeito. Resta aos cidadãos posicionarem-se sobre a mesma e definirem qual o caminho para transformar de facto esta crise numa oportunidade. E você, já se posicionou?

Artigo ontem publicado no Açoriano Oriental

(Imagem: Escafandrista)

Feed the Beast

"Bolsas de todo o mundo subiram após acção concertada de 7 bancos centrais". Para quê lutar contra a besta quando podemos alimentá-la, não?
(Imagem: Tom Krepcio)

domingo, 27 de novembro de 2011

All together now




Ainda a greve geral estava em curso e sucediam-se já as movimentações do costume. Por um lado, os números da adesão, os sectores mais e menos afetados e as ilações daí a retirar. Por outro lado, o velho problema do árduo empenho da comunicação social em transformar o pequeno detalhe em acontecimento, em rapidamente fazer de um incidente um perigoso tumulto. Enfim, nada de novo, portanto.

Pessoalmente, julgo que esta greve geral fica sobretudo marcada pela diversidade das pessoas que vieram para a rua manifestar-se. Dos sindicados aos indignados, do pessoal da cultura aos estudantes, sentiu-se no ar uma comunhão de interesses, de preocupações e, claro, de revolta e indignação. Não existiu uma manifestação, mas sim um desfile delas. Em todas sentia-se combatividade e a tão necessária vontade de mudança. Sentia-se uma sólida oposição ao rumo político em curso e à forma como as instituições políticas estão a responder às necessidades e vontades populares. Infelizmente o panorama atual a este cenário tem conduzido.

E tudo isto sucedeu apesar de se ter notado um aparato policial sem precedentes. Autênticos Robocops com grandes armas bem visíveis escoltaram os manifestantes Chiado acima, criando uma notória tensão entre quem por lá andava. Protestos perfeitamente pacíficos e festivos subitamente foram assumidos como ameaçadores. Isto para já não falar dos polícias à paisana que por lá andaram incendiando os ânimos.

Claro que, tendo em conta o cenário atual, fica sempre a sensação de que muito mais gente devia ter aderido à greve. O que é preciso mais para que as pessoas venham em massa para a rua manifestar-se e defender a sua dignidade? As respostas podem ser diversas, mas a certeza ficou de que esta insatisfação está a crescer e a lançar pontes entre sectores com pouco historial de proximidade. Isto está a mudar.

Artigo publicado sexta-feira no Esquerda.net

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Criminoso!

Via Jugular. Para quem ainda tem dúvidas que existiam muitos polícias à paisana no meio das manifestações de hoje. Para quem ainda tem dúvidas que a polícia anda a actuar de forma criminosa. Três polícias à paisana a baterem num miúdo. Repare-se bem no fulano de capucho cinzento no video acima, filmado hoje.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Eu Grevo!

Tu grevas, ele greva, nós grevamos!

domingo, 20 de novembro de 2011

5 anos de Activismo de Sofá




Mais do que contabilizar o número de posts, de visitas ou de seguidores, julgo que são sobretudo os 5 anos enquanto blogger que importa ter em conta. E de facto este espaço constitui desde sua criação uma parte importante de quem nele escreve. São muitas horas de reflexão, de opinação, de partilha, de construção e de descontrução. Eu não seria naturalmente o mesmo sem este blogue.

E talvez a parte mais enriquecedora seja mesmo a quantidade de amizades e cumplicidades blogosféricas que se foram desenvolvendo. Dos blogues aqui ao lado, a todos aqueles que vão cá passando (aqui, no facebook, no twitter ou no google +) e comentando com mais ou menos regularidade.

Infelizmente, compromissos grandes nos últimos tempos têm-me feito abrandar bastante. O tempo têm sido pouco para acompanhar a actualidade, quanto mais para escrever sobre ela. Mas isto vai voltar à normalidde. Até lá , agradeço a compreensão dos milhões e milhões que aqui passam. :) Venham mais cinco!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Oh Eusébio...




No jogo recente entre o Braga e o Benfica, o jogador do Braga Alan declarou ter sido alvo de declarações racistas por parte de Javi Garcia. Alguma polémica instalou-se desde então ao ponto de Eusébio já se ter pronunciado sobre o episódio:

"Alan veio queixar-se que Javi lhe chamou preto. Ele é preto e devia ficar ofendido se lhe chamassem branco. Quantas e quantas vez me chamaram preto, mas nunca fiquei ofendido porque o sou realmente. Alan é um estúpido". Comentários para quê?

A Mercadocracia

Em poucos dias, os primeiros-ministros grego e italiano saíram de cena. George Papandreou e o Silvio Berlusconi deram lugar a Lucas Papademos e a Mario Monti. Os seus governos cairam perante a ameaça de aprofundamento da crise nos seus países. E tal não aconteceu por expressão do voto popular. Não aconteceu também porque uma qualquer instituição política do seu país, como a Presidência da República, tenha condenado as suas políticas e os tenha considerado incapazes de continuar a governar os seus países. Papandreou e Belusconi caíram porque as taxas de juro da dívida dos seus países assim o determinaram. Cairam porque os mercados andavam nervosos e depressa foi-lhes indicada a porta da saída. Ainda tentaram resistir, mas o seu esforço adivinhava-se desde logo inglório.

Como é evidente, salientar tal facto está longe de ser um lamento pela queda destes dois políticos em concreto. Trata-se sim de sublinhar o ponto a que chegamos na actualidade: os mercados já conseguem fazer cair sem grande dificuldade governos democraticamente eleitos. Já conseguem derrubar maiorias parlamentares. No caso de Berlusconi, torna-se até particularmente curioso constatar que o político e empresário que sobreviveu a mil e um processos nos tribunais, a um sem número de lamentáveis escândalos e polémicas, acabou por ser derrotado por algo tão irracional e aleatório como os juros da dívida do seu país.

Mas tão ou mais grave do que este facto em si, é a passividade com que estas graves dinâmicas em curso são aceites pelos mais diversos actores. Veja-se o caso dos restantes Estados-membros europeus. Não só deram o seu consentimento mais ou menos explícito, como não esconderam o seu desejo de que a mudança de cadeiras se operasse rapidamente. Estas dinâmicas beneficiaram também de uma cobertura quase acrítica da comunicação social. Perante uma preocupante subtituição do voto pelos juros da dívida enquanto mecanismo de legitimidade política, grande parte da imprensa mais não fez do que selar a inevitabilidade de um processo em curso. Por último, a passividade com que as opiniões públicas em geral olham para todo este processo também não deixa de ser preocupante. Chegou-se a um ponto de tamanha apreensão e desorientação que a legitimidade eleitoral passou a ser um detalhe.

Como cereja em cima do bolo de todo este cenário algo dantesco, é sabido e reconhecido que as substituíções em curso não originarão mudanças políticas de fundo ao rumo seguido até aqui. A austeridade continuará a ser a palavra de ordem, em linha aliás com todos os que defendem que não existem alternativas a este tipo de caminho. A presente crise tem demonstrado que, mais do que favorecer genericamente a direita ou a esquerda políticas, impulsiona sim a alternância no poder. Não será por acaso que um pouco por toda a Europa os partidos no governo começaram a acumular derrotas eleitorais, abrindo caminho aos maiores partidos da oposição. A mudança de governo acaba então por ser pouco mais do que uma mudança de caras, já que as políticas são para manter ou aprofundar.

A supremacia da economia sobre a política, ou do capital sobre o povo, não é um tema novo. Pelo contrário, povoou grande parte das ideologias políticas dos séculos XIX e XX. Eis como, em pleno século XXI, temos um exemplo claríssimo deste tipo de fenómeno. Ninguém esperava que estas dinâmicas desaparecessem nos dias que correm. Quando muito, seria sim expectável que se mantivessem de forma mais dissimulada, menos evidente. Mas não, parece que afinal a tradição ainda é o que era.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sorry




Grandes afazeres profissionais e pessoais têm-me dado pouco tempo para para este espaço nestes últimos dias. São fases... Mas isto vai voltar ao normal. Até lá, as minhas desculpas aos milhões que aqui passam diariamente

Novas Franjas na Esquerda




Como é sabido, por mais paradoxal que possa parecer, os acontecimentos actuais não estão a originar viragens políticas à esquerda. E o inverso também não está bem a suceder. São sim momentos onde a insatisfação e a apreensão generalizada na população acabam por ser propícios aos típicos desejos de despolitização. Ou seja, grande parte da população está reticente em encontrar nas alternativas políticas existentes a solução para os problemas do país.

A boa notícia é que estes momentos são propícios ao surgimento de novos movimentos políticos. Com ideários à primeira vista difusos, acabam por contribuir decisivamente para chocalhar e posteriormente renovar as dinâmicas políticas existentes. Neste sentido, na esfera de influência da esquerda política, têm sido tempos férteis em novidades. Dos Indignados ao Occupy Wall Street, uma nova geração de movimentos têm vindo a assumir um protagonismo mais do que interessante. De forma mais ou menos estruturada, e com argumentários mais ou menos inovadores, estão a conseguir trazer novos sectores para a contestação social, ao mesmo tempo que estão a possibilitar novas pontes entre os movimentos e correntes políticas já existentes.

E a este panorama devem também adicionar-se movimentações em franjas à partida não tão usuais. Veja-se o caso do movimento anonymousque, um pouco por todo o mundo, mobilizado em torno de ideais anti-corrupção, pugna pela transparência e apela mesmo à desobediência civil através da pirataria informática. Veja-se aliás a este propósito a curiosa emergência de movimentos e até partidos pirata em diversos cantos da Europa. Assentes em ideias como o software livre, os standards abertos e o acesso aberto à informação pública e ao conhecimento, o hacktivismé com certeza um fenómeno que veio para ficar. E muitos outros exemplos de movimentos políticos emergentes podiam ser aqui identificados

Estes não são tempos fáceis para a esquerda, é certo. Mas é sabido que os tempos difíceis são também tempos de renovação, de realinhamento e de consolidação. As dinâmicas sociais estão a demonstrar bem que a política encontra os seus caminhos apesar de todos constragimentos no sentido da despolitização.Novas franjas de inconformismo e de sede de mudança estão a surgir onde menos se espera. Compete à esquerda agarrar estas oportunidades de crescimento.

Artigo hoje publicado no Esquerda.net

sábado, 5 de novembro de 2011

E a Grécia aqui tão perto...

Quando pensávamos que as coisas não podiam piorar, o povo grego deve estar a sentir-se ainda mais enxovalhado nos tempos que correm. Enxovalhado o suficiente para perder qualquer esperança que a situação do seu país se resolva no actual quadro. Confiando cada vez menos nos seus políticos, na UE e em qualquer outra organização internacional.

E se calhar tão ou mais preocupante do que isso é que Portugal é o próximo na fila. A imagem acima até pode não o mostrar com clareza. E, nestes dias, a tão grande demonização dos gregos quase o fez esquecer. Mas a crua verdade, como todos sabemos, é que a Grécia por estes dias está aqui tão (mesmo muito muito) perto.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Os bugs de Nuno Crato

Num quadro de redução de eventual de disciplinas, Nuno Crato considerou a inutilidade da disciplina TIC do 9º ano. Segundo o ministro, os estudantes com as idades em causajá sabem mexer num computador. Pelos vistos, o ministro esqueceu-se que utilizar um computador como ferramenta de produtividade é um pouco mais do que mandar uns emails, navegar nas redes sociais e ver uns videos no You Tube. Esqueceu-se que se calhar os jovens até sabem mexer num computador, mas estão longe de conhecer ferramentas de folha de cálculo, de bases de dados, de criação de páginas web, ou mesmo ferramentas de processamento de texto com uma profundidade mínima.


Aliás, pela lógica de Nuno Crato, devíamos poder acabar com o Inglês, porque os miúdos de hoje vêem televisão e ouvem música em inglês. Deviamos também acabar com geografia, porque os miúdos de hoje viajam muito. E já agora acabe-se com o Português também. Porque os míudos de hoje até sabem falar... Num momento em que se exigem investimentos que suportem o crescimento do país, sobretudo na educação, o Ministro com tal pasta sai-se com uma destas. Comentários para quê?

(Imagem: Nuno Crato)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Uma bocadinho embaraçoso

Ontem, ao recordar a uma colega minha húngara que hoje seria feriado, esta respondeu-me que na segunda-feira também era feriado na Hungria. Acrescentou que, por isso, trabalhariam no próximo sábado... Pensei não perceber bem o que a minha colega me estava a dizer. Perguntei-lhe se sempre fora assim. Se sempre que existia um feriado, cortavam um dia no fim-de-semana seguinte. Ela respondeu-me afirmativamente...

Os Corajosos

Quando Pedro Passos Coelho fez campanha sob o lema “andamos a viver acima das nossas possibilidades”, foi considerado corajoso por o afirmar. E a coragem tem sido uma das características que mais lhe tem sido atribuída, não só pelos seus partidários, mas também por comentadores e outros opinion makers de quadrantes diversos. O acto de pedir (ou exigir, melhor dizendo) sacrifícios é considerado corajoso. Mais recentemente, tal adjectivo foi atribuído ao primeiro-ministro quando este anunciou o corte dos subsídios de Natal para 2012 e 2013. Foi também considerado corajoso o facto de Passos ter reconhecido na semana passada que o país tem de “empobrecer” para conseguir sair da crise.

Como é evidente a noção de coragem varia de quadrante para quadrante. E estranho seria se assim não fosse. Mas existe uma tendência quase congénita na análise política para considerar corajosa a tomada de medidas que cortam direitos ou regalias existentes. Importa portanto demonstrar um pouco o quão inviesado é tal raciocínio.

Façamos uma análise sobre a coerência ou não de tais medidas com o perfil ideológico das diversas forças políticas, começando por assumir que o que é corajoso para um liberal poderá não o ser para um social-democrata e vice-versa. Assim sendo, será que é corajoso um governo com um perfil liberal cortar nas prestações sociais? Dado o alinhamento de tais medidas com o seu pensamento político, podemos dizer que um liberal que corta benefícios sociais é tão corajoso como um social-democrata que os aumenta. E aumentar a taxação sobre os rendimentos do trabalho, ao mesmo tempo que se isenta as mais-valias de capital, será um liberal corajoso por o fazer? Diríamos que é um acto tão corajoso para um liberal como um social-democrata defender a taxação das grandes fortunas. Ou seja, considerar que medidas em perfeita sintonia com o pensamento político dos respectivos autores são corajosas é algo bastante paradoxal.

E a suposta coragem das medidas em curso parece também não resistir à análise do contexto que as rodeia. Tomemos como exemplo a actual governação. No fundo, considera-se corajosa a adopção de medidas que nos estão a ser impostas em diversas frentes. Impostas pelos restantes Estados-membros europeus e impostas também pelas mesmas organizações internacionais que suportam o sistema financeiro internacional altamente desregulado que nos trouxe até aqui. Considera-se corajosa a adopção de uma receita cujos resultados estão à vista na Grécia. Por último, considera-se corajosa uma estratégia apostada em por a casa em ordem, embora seja practicamente consensual que não foi por a casa está em desordem que os mercados resolveram atingir-nos.

Tal como referido acima, a coragem depende naturalmente da perspectiva que temos das coisas. A meu ver, coragem seria não só pensar, mas agir assumindo que esta crise não pode ser enfrentada jogando apenas no tabuleiro nacional. Uma actuação firme no contexto europeu, lançando pontes para uma acção con junto com os outros países caidos ou a caminho de cairem em desgraça, isso sim parece-me uma estratégia corajosa, precisamente por tentar remar contra a maré. Bater-se firmemente para que a Europa consiga fazer valer o seu peso a nível internacional exigindo que o sistema financeiro internacional seja rapidamente regulado, isso sim parece-me uma estratégia com alguma coragem. Quanto ao rumo abraçado pelo actual Executivo, confesso não perceber como o seguidismo pode ser considerado corajoso.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Nas Tintas

Em momentos difíceis como os actuais, existirá sempre alguma tendência para simplificar aquilo que à partida até pode ser um pouco complexo. Para tomar o todo pela parte, para colorir ou sublinhar aquilo que, sendo relevante, até pode não ser o essencial. E é normal que se proceda a esta simplificação como forma de tornar mais facilmente entendível o panorama em curso. Claro que cada lado desenhará o panorama a seu gosto, nomeadamente na identificação dos bons e dos maus da história, das vítimas e dos culpados. Mas não se trata necessariamente de um fenómeno de manipulação ou deturpação da realidade, mas sim de uma tendência natural de simplificação, com os seus aspectos positivos e as suas vicissitudes.

No caso da presente crise europeia, entre os diversos fenómenos como os acima descritos, não deixa de ser interessante verificar que o destaque assumido por Merkel e Sarkozi e a forma como têm mantido as rédeas curtas dos PIGS consegue por momentos reduzir a Europa a meia dúzia de Estados-membros. De um lado, os duros alemães e os algo tontos franceses e, do outro, os irresponsáveis e endividados da Europa do Sul. Então e o resto da Europa, qual o seu papel nesta novela?

Onde anda o Reino Unido, a Bélgica, a Holanda, ou a Áustria? E os escandinavos, qual o seu posicionamento? E os pequenos países como o Luxemburgo, o Chipre ou Malta? E os bálticos, o que pensam eles sobre o que se está a passar? E os diversos Estados-membros da Europa Central e de Leste, como a Polónia, a Hungria, a República Checa, a Eslovénia, a Eslováquia, a Roménia, a Bulgária? O que pensam sobre a crise do euro, como se posicionam sobre as decisões em curso?

Como assertivamente referiu Clara Ferreira Alves no último Eixo do Mal, a verdade é que se estão mais ou menos nas tintas para o que se está a passar na Europa do Sul. Aliás, manifestam preocupação, mas apenas numa perspectiva de não serem eles as próximas vítimas da desgraça que agora atingiu os vizinhos. Qual solidariedade, qual quê. É o salve-se quem o puder, é o cada um por si. E só muito estranhamento tal comportamento pouco fraterno nos poderia causar alguma confusão. Basta pensarmos por exemplo no comportamento que Portugal tem tido com os Gregos. A única preocupação tem sido distanciarmo-nos ao máximo e quando muito até ajudar no linchamento de que são alvo, esperando assim que os outros não olhem para nós.

E assim anda a União Europeia. Importa relembrar que as uniões não se vêem nos bons momentos, mas sim nos maus. E esta tão evidente ausência de solidariedade dos Estados-membros, esta incapacidade de pensar, sentir e agir como um todo com um mínimo de coesão é apenas mais um sinal que a Europa precisa de ser urgentemente repensada, reformada e até refundada. De outro modo, o nacional-“tintaismo” continuará a ganhar terreno.

Artigo hoje publicado no Esquerda.net

(Imagem: Mercy Online)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A melhor maneira de não se fazer nada

Consegui apanhar hoje na SIC Notícias o directo da audição no Parlamento do ex-Secretário de Estado das Obras Públicas, Transportes e Comunicações. Discutiam-se as ruinosas parcerias pública-privadas, nomeadamente as SCUTS. A discussão resume-se assim: PSD acusa PS de ter celebrado parcerias ruinosas para o país. PS lembra PSD que os seus governos também o fizeram. E pronto. Comentários para quê?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Transições Incertas

Quando um regime ditadorial cai bruscamente, os países entram na cinzenta fase da transição para a democracia. Tal como é descrito nos diversos manuais destas áreas, trata-se de um período de indefinição onde a democracia pode surgir ou, pelo contrário, originar-se um novo regime ditadorial. Alguns dos países onde está a ocorrer agora a primavera árabe estão precisamente a passar por este período de incerteza.

Em poucos dias, tivemos sinais de esperança e de preocupação. Na Tunísia, tudo indica que as primeiras eleições livres correram bem, independentemente de ter ganho um partido não secular. Na Líbia, por seu turno, o linchamento de Kadhafi é no mínimo preocupante. Oxalá os líbios consigam rapidamente virar a página deste triste episódio.

domingo, 23 de outubro de 2011

Saco de Gatos


A Europa está a dar mais uma demonstração da sua incapacidade para gerir a crise em curso. Entre adiamentos vergonhosos, governação franco-alemã despudorada e receituários de recapitalização bancária cujos efeitos há muito estão demonstrados, a UE faz uma triste figura perante os seus cidadãos e mesmo perante o panorama internacional. Nunca como hoje a UE conseguiu encaixar-se tão bem no histórico paralelismo com a Torre de Babel.

Bem sei que vai soar a sentimentalismo de esquina, mas enquanto europeísta convicto sinto-me particularmente envergonhado com a triste figura que todo o edifício comunitário se está a prestar nos momentos presentes.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Da Resignação à Indignação

O fim-de-semana ficou sem dúvida marcado pelas chamadas “manifestações dos indignados”. Em cidades de todo o mundo ouviram-se muitas vozes contra o actual estado de coisas. Manifestaram-se contra a actual crise financeira, as suas causas e a forma como está a ser gerida, contra a desregulamentação dos mercados, contra um status quo político que tudo assume como inevitabilidade, sempre atento à estabilidade financeira mas pouco preocupado com o bem estar dos povos. Protestou-se também contra a falta de qualidade da democracia, contra o distanciamento entre eleitos e eleitores e a favor de uma democracia mais aberta à participação dos cidadãos. E houve até quem ligasse, e bem, todas estas questões à dimensão ambiental, sublinhando o desrespeito do modelo económico actual e o consumismo em que assenta o mesmo para com o meio ambiente.

É certo que todas estas causas convenientemente agrupadas sob a chapéu da indignação, parecem à primeira vista pouco mais do que uma grande salganhada. Não é pois de estranhar que no sábado tenhamos ouvido jornalistas a dizer que se trata de um movimento sem ideologia certa, unido apenas pela indignação. Se tal assunção até não soa mal quando dita num qualquer directo, revela no entanto uma miopia significativa. Como se não fosse visível a olho nu que a indignação crescente reúne-se consensualmente na crítica, mais ou menos construtiva, ao modelo político e económico que o Ocidente conheceu nas últimas décadas: a democracia representativa (que satisfaz um número cada vez menor de cidadãos) assente na economia de mercado (que, baseada num sistema financeiro internacional totalmente desregulado, nos trouxe ao panorama actual). Posto isto, a ideologia destas movimentações será assim tão difusa? Julgo que não.

E as manifestações de sábado mostraram isso mesmo. Sobretudo em Portugal. Se na gigantesca manifestação do 12 de Março apenas era consensual a crítica ao Executivo de então, este 15 de Outubro foi diferente. Por um lado, denotou-se que quem lá estava, protestava com uma convicção clara: de que a austeridade não é o caminho, que afundará a economia portuguesa e que a solução para o problema em que o país se encontra está longe de poder ser restrita ao âmbito nacional. Por outro lado, os números da adesão, mas não só, demonstram que a resignação parece estar a dar lugar à indignação. Sobretudo com os cortes dos subsídios da função pública, o país parece ter começado a perceber o que são políticas recessivas. Subitamente, o colega de trabalho (que até é um fulano calmo), a vizinha do 2º dto (que não gosta de políticas) e o Sr. Carlos do café (que apenas fala do tempo e da bola) começam a deixar transparecer a sua indignação.

A resignação começa a dar lugar indignação porque as pessoas sabem que tal é o mínimo que podem fazer perante o que se está a passar. Demonstram assim que não estão com vontade de pagar uma crise que não provocaram e que não acreditam que a austeridade seja o caminho para a ultrapassar. Como é sabido, é nos momentos de crise, envolvendo tensão e até conflituosidade, que surgem as grandes mudanças. Daí o tão repito chavão do “fazer da crise uma oportunidade”. Mas se até agora os defensores do “temos vivido acima das nossas possibilidades” estavam a levar a melhor, a situação parece estar efectivamente a mudar. O conjunto alargado de movimentos sociais em todo o mundo está de facto a despertar consciências com o seu apelo à indignação e a sua exigência de um mundo melhor, mais justo, mais democrático, mais amigo do ambiente. No fundo, um mundo onde as pessoas são mais importantes que os mercados. Simples, não?


Artigo publicado na terça-feira no Açoriano Oriental

terça-feira, 18 de outubro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

Tumultos?!

Quando chego a casa pelas 19h, ouço uma jornalista em êxtase na RTP a falar em confrontos e tumultos na manifestação em Lisboa. Sim, ouviram bem, "tumultos" ?!? A vontade de sangue é grande, nós sabemos. Mas podia ser um pouco melhor disfarçada, não?

E o país começa a indignar-se


As manifestações de hoje numa série de outras cidades do país demonstram que a indignação cresce. Sentiu-se na rua que os protestos já estão a abranger muito mais do que a "malta do costume".

A elevada adesão teve o seu quê de surpresa, uma vez que há apenas uma semana atrás ninguém conseguiria prever o seu sucesso ou não. Mas também é verdade que se os portugueses não são capazes de se indignar com o que agora lhes estão a fazer, então não sei então o que lhes poderá indignar.

Vemo-nos daqui a pouco

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ah e tal, fazer da crise uma oportunidade

É normal que em momentos como o actual uma série de chavões e soundbytes vão ganhando relevo. O “fazer da crise uma oportunidade” é talvez um dos que assumiu particular destaque. Com ligeiras variantes, é repetido até à exaustão por um conjunto muito variado de opinion makers, particularmente aqueles que vêem no momento presente uma oportunidade singular para por ordem na casa. Ou seja, para acabar com o modelo de Estado-Providência com o argumento de que temos vivido acima das nossas possibilidades. Não é portanto necessário ser-se um horrendo esquerdista para se perceber que os sectores políticos mais à direita encaram esta crise como o ónus perfeito para fazer valer a sua visão do mundo.

Mas é também particularmente interessante verificar que sejam agora estes sectores da direita a mais utilizar o slogan da crise como oportunidade, quando é sabido que este tipo de visão até está tradicionalmente associada às teorias marxistas de transformação social. Como é sabido, estas sempre encararam os momentos de crise como momentos ímpares para, aproveitando a revolta popular e a predisposição para a mudança, impulsionar rupturas com o sistema vigente e conseguir grandes saltos em termos de progresso social e político. Não é por acaso que as crises são historicamente grandes impulsionadoras das revoluções.

Assim sendo, é natural que haja hoje grande apreensão entre os sectores da esquerda sobre as consequências da crise. Sobretudo num momento em que as opiniões públicas parecem semi-anestisiadas pelo discurso da austeridade. Os tempos não são os mais animadores, é certo. Mas, não querendo cair em clichés, importa não perder de vista a potencial de oportunidade que estes momentos de mudança encerram.

As manifestações que amanhã ocorrerão em todo o mundo são apenas um exemplo de que esta crise também consegue despertar consciências e gerar desenvolvimentos com alcances dificilmente previsíveis. Amanhã exige-se justiça económica, exige-se uma melhor democracia, exige-se a paz, exige-se até um mundo melhor. Retomam-se as conhecidas dinâmicas do “ser realista, exige o impossível” com uma vitalidade como há não se via. Tal é impulsionado por uma diversidade impressionante de movimentos sociais, vindos até dos sítios mais inesperados (veja-se o relevo crescente do movimento Occupy Wall Street).

Em suma, começa a ser tempo da esquerda exigir de volta uma máxima que é sua por natureza. Até porque começa a estar à vista de todos que as oportunidades não são assim tão desanimadoras no panorama actual.



Artigo hoje publicado no Esquerda.net


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

15 de Outubro - A Democracia sai à Rua


"As pessoas não são descartáveis, nem podem estar dependentes da especulação de mercados bolsistas e de interesses financeiros que as reduzem à condição de mercadorias. O princípio constitucional conquistado a 25 de Abril de 1974 e consagrado em todo o mundo democrático de que a economia se deve subordinar aos interesses gerais da sociedade é totalmente pervertido pela imposição de medidas, como as do programa da troika, que conduzem à perda de direitos laborais, ao desmantelamento da saúde, do ensino público e da cultura com argumentos economicistas."


Ler a convocatória na integra aqui.

Aparece e trás um amigo também!

domingo, 9 de outubro de 2011

Notas sobre a Madeira


1 - Dizer-se que esta é uma vitória à tangente de Jardim e que tal representa um enfraquecimento do líder madeirense parece-me uma visão muito optimista. Pode ter sido o pior resultado de sempre de Jardim, mas conseguiu-o contra tudo e contra todos, após semanas e semanas de exposição mediática negativa. Se isto não é uma estrondosa vitória, o que será?

2 - O CDS consegue de facto um resultado impressionante. Mas parece-me que tal resulta também da expectativa mediática que se gerou em torno da sua candidatura. Desde logo, e sem se perceber como, se assumiu que José Manuel Rodrigues teria um grande resultado. Estas expectativas tão mediatizadas atraem votos.

3 - Os resultado do PTP e do PND são a demonstração que, até na oposição Jardim consegue fazer escola. Como tem sido sublinhado por diversos comentadores, trata-se da aplicação do folclore político celebrizado por Jardim contra o próprio.

4 - A esquerda, no seu todo, foi a grande derrotada. PS, CDU e BE têm de repensar a sua estratégia na região. É certo que não é só na Madeira que os tempos não andam famosos para a esquerda política, mas os resultados no arquipélago são um desaire que não deve ser minimizado.

5 - A qualidade da democracia da Madeira sai bastante mal tratada destas eleições. Há muito que estão identificados os perigos que Jardim representa. Mas esta foi de facto a campanha em que tal foi explicitado com maior clareza. E mesmo assim o eleitorado concedeu-lhe uma nova maioria absoluta. Relativizar tal facto e desculpabilizar o eleitorado é um sério contributo para não se ver a real dimensão do problema.

O Criativo


Num artigo hoje publicado no Expresso, entitulado "Os Inadaptados", Mário Crespo estabelece um fortíssimo paralelo entre Alberto João Jardim e (imagine-se!?) a CGTP e a UGT. Segundo o pivot da SIC Notícias, as semelhanças são inúmeras: vivem noutro tempo, acham que o Estado pode tudo pagar e que os sacrifícios podem ser contornados.

É preciso ser-se, no mínimo, um verdadeiro criativo para encontrar tal paralelismo entre o sindicalismo português e Alberto João Jardim. Já para encontrar paralelismo entre o populismo de Jardim e o populismo de Mário Crespo não acho necessária tanta criatividade. É que, pelos vistos, ambos têm uma capacidade impressionante de mobilizar os alhos e os bugalhos que forem precisos para fazer valer um ponto de vista prévio.
(Imagem: Vagueando)

sábado, 8 de outubro de 2011

Uma boa notícia


Segundo o próprio anunciou, o ciclo político de Carlos César acabará no próximo ano, 16 anos depois de se ter iniciado. Confesso-me surpreendido por esta notícia. Não é comum um líder que ganharia sem grandes dificuldades um próximo mandato, abandonar tal possibilidade.

Mas esta notícia parece-me boa em vários domínios. Todos parecem ganhar com ela. César tem assim hipótese de sair com altos índices de popularidade. A oposição tem uma possibilidade adicional para mostrar o que é que vale nas próximas eleições. Os açorianos, após 16 anos de status quo político, serão convidados a escolher uma solução que será sempre de mudança (maior ou menor).

Por último, até para o PS Açores esta poderá ser uma boa notícia. É certo que não vai ser fácil. A saída de um líder carismático convida fortemente a uma travessia no deserto. No entanto, após 16 anos, uma mudança de liderança representa sempre a possibilidade de uma forte lufada de ar fresco. Resta agora ter capacidade de aproveitá-la.
(Imagem: PDA)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Offshore Político




E em plena campanha eleitoral, Jardim continua a passar o dia a fazer inaugurações. Mas o que impressiona não é o facto de Jardim o fazer. Mas sim a atitude bocejante das autoridades competentes perante mais este atropelozito às regras democráticas. Quem aguarda uma palavra do Presidente da República, deverá fazê-lo sentado. E a Comissão Nacional de Eleições, terá perdido de vez a esperança de se fazer respeitar na Madeira?

O Clientelismo (na Madeira e não só)



Tudo indica que Jardim deverá conseguir uma nova maioria absoluta nas regionais do próximo fim-de-semana. Como é possível que os madeirenses o elejam novamente depois de tudo o que se está a passar? Como é possível que, após 33 anos de Jardinismo, se continue a querer mais do mesmo, afastando-se mais uma vez a possibilidade de mudança? Eis algumas das perguntas que andam no ar por estes dias. A explicação de censo comum que ouvimos da maioria dos comentadores é que os Madeirenses querem Jardim porque este lhes garante obra, lhes garante desenvolvimento. Trata-se de uma explicação fácil, que peca sobretudo por ignorar uma série de outros mecanismos que garantem a perpectuação no poder dos actores políticos.

Centremo-nos no caso da Madeira. Após mais de três décadas de poder, Jardim e o PSD-Madeira estão em todas as esferas da sociedade madeirense. Como? Uma das principais fontes do poder é a distribuição de recursos. Através de acções como as nomeações para o aparelho governativo, a concessão de empregos no sector público, a atribuição de subsídios ou outros apoios a empresas, associações ou à própria Igreja, a contratação de serviços ao sector empresarial na região - da empreitada pedida a uma empresa de construção civil à produção de um evento a uma empresa de gestão cultural, passando por publicidade oficial nos media regionais – compram-se fidelidades políticas muito significativas. São mecanismos geradores de dependências económicas que muito ajudam à manutenção do poder.

É este clientelismo que garante que os empresários X, Y e Z, que sempre tiveram contratos com o governo regional, não tenham interesse na mudança política; que o líder de uma associação que recebe fundos do governo regional não ande a defender a mudança; que a Igreja, que tem beneficiado de bons apoios na região, se alterne entre o apoio mais explícito e o silêncio aprovador; que a imprensa na região, dependente da publicidade oficial, não tenha vontade de levantar grandes ondas; que o o reitor da universidade, que até vai inaugurar um edifício novo no próximo ano, se abstenha de ter uma intervenção pública crítica da vida política regional; que o chefe dos bombeiros do concelho Y, a quem foi prometida uma nova ambulância até ao final do ano, simpatize com o sr. Jardim. E milhares de exemplos poderiamos dar sobre a forma como se estrutura o clientelismo numa realidade como uma região autónoma.

Mas é também esta tão grande capacidade de distribuir recursos que garante dificuldades adicionais à oposição para se constituir como alternativa. Numa sociedade em que estar contra um poder quase omnipresente é um garante de dificuldades adicionais a nível profissional, para não dizer social, só os mais arrojados embarcam em tal aventura. Por outro lado, a capacidade que o aparelho governamental tem em absorver os quadros que vão surgindo na região, convidando-os a assumir responsabilidades na administração pública ou em empresas públicas, asfixia a capacidade da oposição segurar gente nas suas fileiras.

Exemplos como os acima demonstram os perigos de estadas prolongadas no poder, independemente da força política que o ocupa. Neste caso em concreto, a sociedade madeirense encontra-se já tão enredada pelos tentáculos do poder do governo regional e do PSD-M, que deixou de ter a autonomia necessária ao bom funcionamento da democracia na região. Eis porque a rotatividade no poder é um importante indicador da qualidade da democracia. Tal garante a não proliferação de uma série de vícios associados às longas estadias no poder. E, como todos sabemos, infelizmente não é só na Madeira que tal fenómeno acontece.

Artigo hoje publicado no Açoriano Oriental

(Imagem: Ramble Tamble)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Cavaco pede aos Portugueses para não desistirem (dele)






O Presidente da República apelou hoje para que os portugueses não desistam (dele) nesta fase em que "a tentação da desistência pode ser grande".
In Diário de Notícias
(Não aconteceu, mas podia ter acontecido...)

Cultura Pirata na Sociedade da Informação

Mais info aqui


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Somos um povo manso?

Chega a ser saloia a demonização de que os gregos têm sido alvo em Portugal. Por todo o lado se ouve que Portugal não é a Grécia. E tal afirmação acaba por surgir até dos sectores mais inesperados. Parecemos fazer questão de sublinhar que não somos malandros e maus trabalhadores como os gregos. Ficamos portanto agradecidos que não nos confundam com a rebaldaria que nos dizem lá se passar. Parecemos também querer deixar bem claro que não somos uns desordeiros mal comportados que cercam o parlamento e fazem greves a torto e a direito. Nada disso.

Pelo contrário, parecemos apenas preocupados em demonstrar que reconhecemos ter-nos portado mal, mas que tudo faremos agora para receber uma medalha de bom comportamento. Nada de desordens, grandes protestos ou confusões, porque este é um tempo onde se exige responsabilidade. Parecemos ter interiorizado tão bem a ideia de que andamos a viver acima das nossas possibilidades, que agora assumimos sem sequer questionar que o sacrifício e a penitência são o nosso caminho para a salvação.

As sondagens estão aliás a reflectir bem esta postura maioritária na opinião pública. Depois de 100 dias de ininterruptos anúncios de austeridade, o grau de apoio ao presente Executivo continua de boa saúde. Ou seja, após subidas de impostos a todos os níveis, cortes nas prestações sociais, cortes nos salários, o país parece achar que é este sacrifício presente que nos assegurará um futuro risonho. E mesmo verificando que, na sequência de tais medidas, a economia encontra-se em travagem brusca, os juros da dívida pública continuam em níveis incomportáveis e que os que graves efeitos sociais do actual quadro são já visíveis à vista desarmada, consideramos que é este o caminho que nos curará.

Não é fácil perceber esta lógica dos brandos costumes da opinião pública. Sobretudo quando parecem ter sido há muito ultrapassados todos os limites à dignidade e quando se tornou claríssimo que os sacrifícios não são para todos. Aliás, casos de polícia como o BPN ou a ocultação da dívida por Jardim são rapidamente secundarizados, como se de problemas isolados se tratassem.

Se até agora a compreensão e a lógica do sacrifício têm vencido, começa a ser tempo de esclarecer rapidamente que os portugueses não são um povo manso. Que a sua brandura tem limites. A manifestação nacional de amanhã tem tudo para ser um passo importante neste sentido.


Artigo hoje publicado no Esquerda.net
(Imagem: Sinalizar)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Fortuna Política

100 dias passados de ininterruptos anúncios de austeridade e sem que se vislumbrem quaisquer efeitos positivos daí provenientes, as sondagens continuam a dar muito boa saúde ao actual Executivo. A mensagem de que nos portamos mal e de que a salvação virá do sacrifício e da penitência tem passado de forma extraordinária. Medeiros Ferreira recuperou ontem na TVI o conceito de "fortuna política". Aplica-se na perfeição a estes primeiros 100 dias.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Uma palavrinha, vá lá

O tempo amolece as vontades, é certo. Mas, neste caso, nós vamos fazer um esforçozito adicional para não deixar que assim seja. Sr. Presidente, continuamos à espera de uma palavrinha sobre a situação da Madeira. Não pedimos uma declaração ao país em prime time. Isso seria pedir muito. Uma palavrita já não era mau.

(Imagem: Cantigueiro)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Angola livre


Ainda não foi desta que os movimentos que defendem a saída de José Eduardo dos Santos e uma abertura democrática em Angola conseguiram uma grande mobilização. De qualquer modo, inspirados pela primavera árabe, a sua força está a aumentar. Como em qualquer eventual processo de democratização, existem duas posturas a ter: assobiar para o lado com a desculpa que estas questões apenas dizem respeito aos angolanos ou; apoiar sem rodeios as forças de democratização do país. Infelizmente, devidos aos fortíssimos interesses económicos, em Portugal reina vergonhosamente a primeira atitude.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

E as vacas riem

Enquanto o país se afunda em buracos encontrados no jardim e se mutila com liberalizações dos despedimentos, Cavaco diverte-se com jogadas de marketing mal estudadas no paraíso açoriano. Ó sr. Presidente, a Vaca que Ri não é dos Açores. Os Açores produzem muitos queijos, mas a vaca que ri não é um deles...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Epá, nós não somos a Grécia


Perdi a conta às vezes que Passos Coelho sublinhou esta ideia na sua entrevista de ontem. Ideia aliás que atormenta o imaginário nacional. Não queremos ser confundidos com os gregos, que horror. Assim como os irlandeses não querem ser confundidos com Portugal e a Grécia. Assim como os Espanhoís não querem ser confundidos com a Irlanda, com Portugal e com a Grécia. Assim como a Itália não quer ser confundida com Espanha, com a Irlanda, com Portugal e com a Grécia. And so on.

Portanto, a primeira reacção de cada uma das potenciais vítimas desta crise é distanciar-se das restantes. Como se os problemas apontados fossem assim tão diferentes. Como se não soubessem que a queda de um gerará sempre um efeito dominó sobre os outros. Num mundo que fizesse um pouco mais de sentido, se calhar estaríamos sobretudo empenhados em procurar minimizar a culpa dos gregos, em vez de sermos os primeiros a cobardemente lhes apontarmos o dedo. Até porque defendê-los em conjunto com outras potenciais vítimas seria um melhor investimento para salvar a própria pele.
(Imagem: RTP)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Alberto João Jardim fez isso? Quem diria...



O buraco financeiro que Alberto João Jardim escondeu está de facto a indignar profundamente o país. Sucedem-se as reacções estupefactas e indignadas sobre os 1,6 mil milhões que o governo madeirense encobriu. Num tempo à partida propenso ao surgimento de caças a bruxas causadoras dos grandes males nacionais, Jardim pôs-se a jeito, é certo. Mas é particularmente interessante verificar o espanto vindo de alguns sectores que até hoje assumiram posturas pouco mais do que contemplativas do que se ia passando na Madeira.

Alberto João Jardim não conseguiu a fama que actualmente detém de um dia para o outro. Pelo contrário, tal foi conseguido degrau a degrau, façanha a façanha, dia após dia. E torna-se até redundante estar a detalhar a dimensão da sua “excentricidade”. No que aos domínios financeiros diz respeito, lado a lado com os empreendimentos que há muito deixam boquiabertos os visitantes do arquipélago, também não são recentes as rotineiras exigências de perdão da dívida madeirense, que sempre foram obtendo feedback positivo dos Executivos de diferentes cores. As façanhas de Jardim nestes domínios não são portanto uma novidade.

Mas é sobretudo a nível político que a (má) obra de Jardim se faz notar. Desde expulsão de jornalistas em conferências de imprensa, boicotes diversos a um jornal diário que se recusa a cair sob a sua influência, inaugurações aos montes em tempo de campanha eleitoral, inúmeras desconsiderações com a Assembleia Legislativa Regional e seus deputados, recusa em aplicar a lei das incompatibilidades dos titulares de cargos públicos, recusa em receber a Comissão Nacional de Eleições, insultos variados a detentores de cargos políticos nacionais, entre muitos outros exemplos.

Curiosamente, tudo isto sucedeu sem que se tenha vislumbrado qualquer oposição séria por parte do seu partido. Pelo contrário, a desculpabilização da sua “exotismo” é uma constante no partido laranja. A título de exemplo, importa não esquecer que foi durante a presidência do PSD de Marcelo Rebelo de Sousa que João Jardim ascendeu a vice-presidente do partido e posteriormente a presidente da mesa do congresso. Por seu turno, mesmo aqueles que fizeram da seriedade a sua bandeira, como Marques Mendes, Ferreira Leite ou mesmo Passos Coelho, não lhe resistiram assim que assumiram as rédeas do partido. Veja-se também a passividade paradigmática de Cavaco Silva, apelidado de Sr. Silva por Jardim antes de ascender a Belém, mas que pouco depois da eleição se deslocou à Madeira para abençoar o líder madeirense.

E infelizmente não é só nos círculos laranja que Jardim é relativizado. Mesmo na oposição, tal tem acontecido nos sectores menos esperados. Importa recordar com estranheza a contemplação com que o então Presidente Jorge Sampaio sempre olhou para Jardim, sem nunca ter exercido a sua magistratura para retirar consequências dos seus actos. Vale também a pena recordar o episódio em que, numa visita à Madeira enquanto presidente da Assembleia da República em 2008, Jaime Gama elogiou veementemente Jardim e a sua obra na região, perante a estupefacção do país.

Jardim é o resultado de uma passividade transversal. Não deixa portanto de ser curioso que esta grande indignação contra o presidente madeirense surja apenas quando a sua acção ameaça gravemente os bolsos dos portugueses. Como até então era apenas uma ameaça ao regular funcionamento das instituições democráticas, aí era chato, mas tolerava-se. Por outro lado, a estupefacção de muitos sectores perante o que agora se descobriu é engraçada. Como se fosse possível estar-se surpreso com uma “marotice” vinda de alguém que não se cansa de mostrar que o céu é o limite. A estupefacção destes sectores tem um nome: profundo embaraço.


Artigo publicado hoje no Açoriano Oriental

domingo, 18 de setembro de 2011

Disfarçar o embaraço

É sempre interessante ver o ar surpreendido e preocupado com que Marcelo Rebelo de Sousa comenta as aventuras e desventuras de Alberto João Jardim. Já agora, importa não esquecer que foi durante a presidência do PSD de Marcelo que Jardim ocupou os mais elevados cargos no seio do partido a nível nacional. Foi vice-presidente da comissão política e presidente da mesa do congresso. Curioso, não é?